Minha ideia de Paraíso é bem menos gananciosa do que, na verdade, a palavra representa. Durante a minha vida eu conheci vários paraísos diferentes e, em cada um deles, sempre havia o outro lado, aquele que as pessoas insistem em chamar de inferno. Eu, ainda vou continuar chamando de Paraíso, por mais doído que esse outro lado seja. Para cada Paraíso que tive e vivi, adquiri experiência, alegria, mágoa, calos, dores, sabores e cicatrizes.
Mas, no fundo, reconheço que classifiquei como Paraíso tudo o que veio em minha vida acrescentar alguma coisa (ou alguém). O Paraíso passou, então, a existir dentro de mim, na minha vida, nas minhas atitudes, nos meus sonhos. Em alguns, cresci como mulher, voltei a ser menina, passei a ser amada e fui, várias vezes, admirada. Em outros, adicionei narizes torcidos, falta de crença, de afeto, de consideração e, principalmente, de respeito. Tudo, no final das contas matemáticas, com um único denominador comum: o meu amor por mim mesma.
Passei por paraísos onde me doei, onde me entreguei, onde fui amiga e fui amor ao mesmo tempo, onde fui só amiga, onde fui só amor. Também tive alguns em que fui verdade, pureza, sinceridade, em que fui unilateral, em que fui correspondida, em que achei que estava sendo. Ao fim da parte linda e florida dos primeiros paraísos, bati o pé, chorei, relutei, corri atrás pra conseguir de volta e fiz aquelas costumeiras perguntas: por que não deu certo, se tinha tudo? por que não recebi de volta tudo o que dei? por quê? por quê? ... Com o passar dos paraísos eu fui percebendo que isso simplesmente não adiantava, nem para mim, Eva, nem para Adão. A gente tinha que seguir caminhos diferentes mesmo. E eu, eu sozinha, comigo mesma, devia aceitar.
Foi com esse pensamento que comecei a colocar as partes feias e tristes dos meus paraísos dentro de um espremedor de laranja, toda vez que elas passavam. O bagaço, no fim das contas, era mesmo a parte ruim, da qual não se pode extrair absolutamente nada. Aquela que você precisa deletar, fingir que nunca aconteceu, achar que nunca passou, para poder viver melhor dentro de você mesma. Já a parte que vira suco, tratei de botar um rótulo e chamar de Experiência. Boas ou ruins, é fato que elas sempre estiveram presentes em cada Paraíso por qual passei. O que sei que é bom e que verdadeiramente acrescenta algo é que, o suco de laranja dos meus paraísos são coisas só minhas, são coisas que só eu enxergo como as enxergo, só eu as tenho dessa maneira. Só eu, mais ninguém. Eu, a única pessoa que permaneceu ao final de cada Paraíso. Eu, meu próprio Paraíso.
